Terrible Two a chegar em força?

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Caetana dizia a tudo que sim. Foste à creche? E ela abanava a cabeça em sinal afirmativo, tivesse ido ou ficado em casa. Foste à china? E a resposta afirmativa era a mesma. Há uns dias começou a mudar o seu registo, Ontem então meu Deus. ‘Caetana senta-te’ ‘Caetana vamos comer a sopa’ ‘Caetana vamos tomar banho’ . Para tudo a mesma resposta ‘Não‘. E para quem não fala, esta palavra é pronunciada de forma perfeita. À noite, já na cama. ‘Caetana queres o leite?’ Não, aish (=sai em caetanês) e empurrou o biberão. Ok, o leite à noite é opcional, eu perguntei e ela respondeu, tudo bem. Já o estava a fechar quando ela se virou, tirou-o das minhas mãos e agarrou-se a bebê-lo. Só parou quando esvaziou o biberão. Portanto, ela queria o leite, mas teve necessidade de dizer a palavra do dia.

Voltando ao título do artigo sem nunca ter fugido dele, já ouviram falar nos Terrible Two?

Trata-se de uma expressão em inglês para os ‘terríveis 2 anos’ ou, por outras palavras, a ‘adolescência da criança pequena. Uma fase em que a criança começa a achar que é crescida e quer mais autonomia, no entanto ainda não consegue ser tão autónoma quanto deseja. É também a fase em que começam a desafiar mais e mais os seus limites, negando tudo o que lhes é pedido ou proposto por nós, mesmo que o pretendam e façam de seguida. Uma fase pela qual passam quase todas as crianças e que se estima que dure entre os 18 meses e os 3 anos. A Caetana está a chegar lá agora, aos 21 meses nada mau, já nos poupou 3 meses disto haha.

E nós, pais, o que fazer com os miúdos nesta tão bonita fase? Fechá-los num armário, com abertura para respirar e atirar comida, e esperar que passe? Medir forças? Gritar? Ameaçar? Bater? Claro que nada disto resulta, apesar de muitas das situações serem a primeira vontade que temos no momento.

Fechá-los num armário é a primeira solução que me ocorre só de pensar na palavra adolescência. Talvez porque sempre ouvi essa fase ser chamada ‘a fase do armário’. Mas não precisam de chamar a CPCJ porque na realidade não passa de uma brincadeira, até porque dentro do armário ia dar-me cabo da roupa toda.

Medir forças, relembrar quem manda, reforçar que SIM – Isto só vai irritar ainda mais a criança. Ok, eu sei – e a criança também sabe – que quem manda cá em casa é a mãe e o pai. E enquanto adultos é nossa obrigação ter a capacidade de perceber que, nesse momento, será das últimas coisas que a criança quererá ouvir. Além disto pensemos em nós-crianças: quantas vezes ouvimos outros adultos dizerem-nos isso? Pais, educadores, professores.. E como nos sentíamos? Eu detestava esse argumento! E, na realidade, a minha filha não tem que comer porque eu mando, ela tem que comer para bem da sua própria saúde. Da mesma forma que tem que tomar banho por questões de higiene. E quantas vezes chamamos outro adulto e ouvimos a resposta ‘agora não me apetece; já vou; não posso’ porque razão os nossos filhos hão-de vir no exato momento em que chamamos? Eles até podem estar só a ver passar uma borboleta de uma cor que nunca viram antes e eu até posso esperar 2 minutos.

Gritar, ameaçar, bater – Se a criança já está irritada e nós formos gritar com ela, como é que ela vai reagir/ responder? Exato, gritando mais. Ameaçar e/ou bater dá o mesmo resultado. Além de estarmos a irritar mais a criança, ainda estamos a dar maus exemplos e a fazer com que ela tenha medo de nós. É isso que pretendemos? Que o nosso filho tenha medo de nós?

Então o que devemos fazer? – Esta é a grande questão que todos colocamos e para a qual não há uma resposta certa nem infalível.

O ideal [o mais acertado, o mais correto, não é o fácil nem aquilo que conseguimos sempre colocar em prática] será mantermos a calma, tentarmos perceber de que precisa o nosso filho – qual o verdadeiro significado da birra – e ajudá-lo a concretizar o seu desejo, dentro do possível, cedendo ou encontrando um meio termo entre o desejo dele e o que é possível [ou o que estamos dispostos a permitir].

Por exemplo, a criança faz uma birra porque não quer comer. Se calhar ainda não tem fome e podemos esperar e comer 10 minutos mais tarde, quando já tiver fome. Ou até quer comer sozinha mas eu quero dar-lhe a sopa para despachar. Demora mais, suja tudo mas comer sozinho é bom, ajuda na sua autonomia.

Afinal a birra é porque quer comer uma bolacha mas está na hora de jantar. Então podemos deixar acalmar a birra para que a criança nos oiça explicar que não poderá comer a bolacha porque é hora de jantar e, ao jantar. come sopa e segundo prato. No caso da Caetana, como pede muita comida e não come quase nada, podemos até ceder e dar um bocadinho de bolacha (menos de metade – ela mexe e remexe e acaba por dar ao cão, ou come mas como é mesmo só um bocadinho não interfere no apetite) e, assim que esse bocadinho desaparece da mão – esteja na boca dela ou caído no chão para o cão – damos logo a sopa, não há sequer tempo para pedir mais bolacha. A gula fica saciada e a Caetana já está disposta a comer a sopa sem birras.

Voltamos às questões de sempre: ‘cada caso é um caso’, ‘não há duas crianças iguais’. Tal como nós, as crianças também não reagem sempre da mesma forma. Cada família tem que ir tentando perceber o que resulta melhor em sua casa.

Eu sei que educar é muito mais fácil na teoria do que na prática. Eu própria dou por mim a gritar com a Caetana e sim, de vez em quando leva uma palmada, apesar de eu defender que isso não seja solução (e não é). Por outro lado, também já houve situações em que estive mais de uma hora para lhe mudar uma fralda porque consegui manter a calma e esperar que ela viesse ter comigo para o fazer.

Isto para vos explicar que sei perfeitamente que não é fácil conseguir manter a calma. É também um trabalho diário que temos que fazer conosco – e que nem sempre conseguimos – e temos que nos tentar colocar no lugar deles e pensar ‘o que é que eu gostava que fizessem comigo nesta situação?’

A Caetana tem ainda outra característica, que anda a aprimorar de dia para dia. Quando faz asneiras e eu pergunto quem fez aquilo ela ignora-me, revira os olhos como que a dizer ‘oh bolas, não percebeste já fui eu? para lá de perguntar’, chega até a fazer palhaçadas para tentar que eu me distraia da pergunta, achando piada.

Outra que me faz imensas vezes é: está a fazer asneiras, empoleirada em algo perigoso – situação bastante comum por aqui – eu levanto a mão para que não repita o que estava a fazer e ela bate-me na mão enquanto diz ‘titiiii’, que é ‘cincoooo’ no seu dialeto. Novamente o pensamento ‘deixa-me ser engraçadinha para ela se esquecer que veio aqui ralhar-me’

E eu tenho dois tipos de reação, umas vezes digo ‘cinco nada que isso é perigoso e podes cair e magoar-te’ outras vezes vou na onda dela, viro o ralhete para a brincadeira e acabo a tirá-la, no meio da brincadeira, do sítio perigoso para que vá fazer outra coisa e se esqueça do que estava a fazer antes.

E por aí? Já passaram esta fase? Estão a passar? Como reagem/ reagiam?

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Carolina Valente Pereira

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