Capeia Arraiana

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Eu sou de Castelo Branco. Tirei o curso na Guarda, onde conheci o meu marido e com quem me mudei para o Soito – uma vila na raia.
No meu primeiro ano aqui perguntaram ao meu marido se não me ia levar à tourada.
Torci o nariz e disse que não gosto. Quando passo por ela em zapping televisivo, só paro se estiver na parte dos forcados.
E eis que me respondem ‘mas aqui são diferentes. Nós chamamos tourada mas, na verdade, é uma Capeia Arraiana.’

E o que é uma Capeia Arraiana?
Não há cavalos nem bandarilhas. Há um forcão – com pontas pintadas de vermelhos mas não afiadas, como já me perguntaram – pegado por cerca de 25/30 homens [e, por vezes, uma ou outra mulher mais destemida] que chamam pelo boi para que venha bater nele.

Os homens parecem ‘protegidos’ mas têm que saber o que estão a fazer. Além de ser pesado, é todo um trabalho de equipa. Ao mínimo descuido o boi pode passar por baixo e magoá-los. E, algo que eu julgava ser impossível num bicho de 600kg mas vi logo na primeira a que assisti – o boi pode saltar!
Quando assisti, saltou junto à ponta – por cima da galha – e magoou o primeiro homem da fila.
Se tiverem dúvidas e curiosidade, encontram vários acidentes deste género no YouTube.
Depois encostam o forcão e correm, fazem brincadeiras com o boi.

Também metem uma vaquinha mais pequena na praça, para os mais novos correrem e imitarem os adultos.

Encerro
É realizado na manhã da capeia [e nalgumas terras também fazem o desencerro – idêntico mas no final e em sentido oposto, a sair da praça].
Cavaleiros com os seus cavalos, pessoas a correr, de mota e em carrinhas vão ao terreno onde estão os bois e encaminham-nos para a praça.
À frente chegam as pessoas a correr, depois os cavaleiros em cima dos cavalos, bois, mais cavalos, motas e carrinhas – as duas últimas não chegam mesmo à praça.

Fiquei curiosa. Quis ir ver e gostei muito. Tanto que, desde que a Caetana nasceu tenho-a levado comigo.
Procuro lugar para vermos o encerro bem e em segurança e sento-me mais à frente para que ela veja bem a capeia.
Conheço pessoas que são contra a tourada portuguesa – eu não sou contra. Simplesmente não gosto, acho que estão a magoar o boi sem qualquer razão e, por isso, não vejo! – mas, essas pessoas, já me disseram que acham isto bullying ao boi. Eu não concordo. Vejo aqui uma brincadeira justa entre homens e animais!
[Justa porque, apesar do argumento que me deram de que o animal não tem opção de decidir entre estar ali ou não, temos que concordar que está em grande vantagem de peso perante o ser humano.]

Brincadeira onde também há acidentes e raramente o boi é a vítima.
Ainda nesta última um rapaz se magoou e outro safou-se por um bocadinho.
Porque correr é muito lindo mas as pernas não podem falhar e, quando se corre em areia, aumentam os riscos de escorregar e cair em frente a um bicho de 600kg.
Quando isso acontece, todos os outros homens correm para distrair o animal e tirar a pessoa magoada.
Mesmo no concurso anual de todas as terras que pegam ao forcão, se houver acidente com uma terra, todos os outros saltam para ajudar.

E dizem vocês – os que não apoiam estas brincadeiras – ‘é bem feito’. Eu não acho que seja bem feito mas sim, tenho uma certa ‘pena’ das famílias, que estão a assistir e, quase de certeza, com o coração nas mãos.
Eu até costumo dizer que, se o Hugo gostasse de pegar ao forcão e correr ao boi, de certeza que eu não gostava tanto de assistir.

Já conheciam esta tradição? O que acharam?

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Carolina Valente Pereira

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